Paris, je t’aime <3

Lembras-te das ruas de Paris? Se fecho os olhos, vejo-nos ainda a brincar por elas, tu a correr trás de mim, eu a fugir de ti, até nos determos de repente, só quando algum gendarme batia connosco? Lembras como, no fim, me abraçava a ti e quase chorava de felicidade? Lembras-te de nós, a comer algodão-doce com a torre de fundo? Lembras-te de ir comigo de mão dada até àquele teatro pequenino e decrépito? Eu, tantos anos depois, quase consigo sentir ainda o cheiro das mimosas naqueles passeios longos, contigo e com a Maga, nas gélidas manhãs do inverno parisino: nós a exalar bafo pela boca, as nossas almas quentes e, quase sem repararmos, chegar juntos à primavera, que esperava por nós, convulsa. A notícia do telejornal trouxe-me de volta as memórias daqueles dias que passei convosco. A Maga já não está, já não há Cortázar nem estudantes revolucionários que lutem por um mundo mais bonito. Hoje, hoje mesmo, agora, ao acordar, tudo parece mais triste e, apesar dessa sensação que fica colada na alma, sinto que ainda podemos encontrar areia de praia debaixo do empedrado das ruas, como acreditávamos daquela. Como se o tempo não tivesse passado e nós fôssemos os mesmos e Paris, Paris. Como sempre.


sandálias=resistência

Quase como um ritual, escrevo ao Outono, envolta em sentimentos encontrados. Por umha parte, quero desfrutar -e desfruto- dos últimos dias de sol e sandálias, esticando um pouquinho mais a sensaçom aprazível e maravilhosa do verao. Por outra parte, tenho de me submeter ao rigor do (estúpido) horário e regressar a umha rutina (estúpida) que me tira (estupidamente) da cama quando ainda é noite e custa, mais do que nunca. Na tentativa de criar certo ambiente descontraído -falso, claro-, imponho-me o objectivo de ir a pé ao trabalho, como se saísse de casa -a essas horas!- para dar um passeio. Ainda nom é completamente de dia quando ponho os pés nus na rua, mas penso que finalmente o sol há-de sair e, depois, já nom me lembrarei desse momento de escuridade e pesar.

E de sono, porque, ainda que saiba o que é o sensato, nom quero deixar de ser o que sou e, para bem ou para mal, gosto da noite. Gosto, como agora, de escrever na cama, a ouvir a -deliciosa!- selecçom de música de piano que Spotify escolheu para mim, enquanto Princess Serenity dormita em cima da capa do computador. Por vezes abre os olhos e fica à espreita, caladinha e quieta, porque, no fundo, ela sabe que estes som os nossos momentos de calma e introspecçom juntas. Gosto destes momentos, mas também gosto das noites de sofá e filme e dos encontros com amigos em casa.

E detesto, sobre todas as cousas, levantar-me de noite para ir trabalhar. Detesto-o profunda, insuportavelmente.

Por isso, quando calço as sandálias velhas, feias, da viagem, para sair à rua a essas horas, faço-o como acto de protesta. Porque poderia levar as sapatilhas novas ou quaisquer uns sapatos dos muitos, lindos, que tenho, mesmo quaisquer outras sandálias, mas nom quero. Nego-me. Calço essas, porque som as sandálias das férias e da viagem com Ítaca e é umha forma, a única que encontro, de nom deixar ir o verao; a única forma, ao fim, de resistência.


Nocturno

A vida impom-nos o seu próprio ritmo, a nós, ainda que nom queiramos, sem perguntar, sem saber, sem se importar se gostamos ou nom, se concordamos ou nom. Alguém, algures, decide que eu hoje nom vou dormir e só me resta aguentar e esperar que as horas passem e que a noite se deixe debagar lentamente, como se fosse umha granada, em atitude quase pornográfica. Pode parecer, mas nom me sinto vencida; nom estou vencida (ainda) -só sei que nom serve de nada apresentar resistência e nom posso malgastar as forças, porque ficaria agitada e mais débil para me enfrentar ao que quer que seja. O silêncio e a quietude som, nestes momentos de calma tensa, a única arma que possuo. Deixa-te embalar por eles, repito-me. E quase que me deixava ir, porque é isso o que mais me apetece agora, mas, quando os olhinhos começam a ceder, acende-se umha luz vermelha intermitente, de alerta, que me acorda, que me trae de novo para a realidade, esta, em que nom posso adormecer, em que devo estar vigilante para nom ser devorada polas ovelhas.


4 e 1/2

Os dias passam tranquilamente, talvez porque o frio nos submete a umha espécie de estado de letargo em que poucas cousas apetecem mais do que sair do calor da cama de manhá cedo (a essas horas em que manhá e noite ainda som sinónimos) ou talvez porque as rotinas acabam por nos impor o seu próprio ritmo sem tempo para o lazer. Ou, talvez ainda, porque os fusos horários sempre ajudam a que o tempo passe mais rápido e porque eu nom deixo de pensar-te e, no fundo, é como se ainda estivesses aqui. Estás, sempre, porque estar é na alma e a falta compensa-se com pequenas cousas (palavras, vozes, imagens, lembranças) que adquirem agora umha dimensom diferente: usar a tua camisa, pôr-me bonita para ti, pintar os lábios, ver um filme depois das aulas de francês, ler poesia, dormir com o teu pijama, tomar o café na caneca verde, habitar entre as tuas cousas ou saber que tens tantas saudades como eu no mesmo momento que eu. 

 

 

 

 

 

 

 

 


O que me faz feliz

Pergunta o Facebook, curioso, as minhas comidas preferidas, o meu lema de vida, o que é que me faz feliz. E coloca umha carinha com sorriso. É o seu lado riquinho, como quando dá bom dia ou te oferece um vídeo de aniversário. O que é que me faz feliz. É lindo perguntar isso. Pode até ser absurdo (dado o contexto), mas nom deixa de ser lindo. O que é que me faz feliz. E penso: Ítaca. Ítaca, em sentido pleno. Ítaca-Homem, porque Ulises (ELE, que viajava tanto), no fundo, era Ítaca. E Ítaca-Casa, porque era ali que ELE sempre queria regressar; porque era em Ítaca que estava o seu lar, a Mulher tecedora de sonhos, ELA, Penélope linda. A sua Casa.

É essa sensaçom de me saber permanentemente em casa -CASA, esse estado sublime, incomparável, da Alma- o que me faz feliz, mesmo quando tu nom estás e nom podo abraçar-te, porque sei que, na realidade, Ítaca, sempre estás. 

Quando tu nom estás e podo ouvir, entre sonhos, o vento a susurrar-me no ouvido que me amas.

Isso é o que me faz feliz.

E, no entanto, nom é só isso.

Nom.

Definitivamente.

O que me faz mais feliz é a Vida. 

A Vida.

A Vida daquela música maravilhosa, daquele Agosto de Sol e gaivotas. A Vida que vou sempre agradecer e celebrar por me ter mostrado o caminho a Ítaca e todas as cousas lindas que, afinal, eram verdade, existiam, existem, e fazem parte de NÓS.


Chuva na pele

Entrou no centro-comercial, sorridente, com o sol, preguiçoso, a brincar entre as nuvens. Ía entretida e, se calhar, foi por isso que nem sequer reparou. Nem sequer sabia, de facto, se haveria, no momento em que ela entrou, algum sinal que pudesse tê-la feito perceber algo do que estava por vir.

Entrou, tratou do que tinha a tratar, foi rapidamente ao quarto de banho e ainda se perdeu no labirinto dos corredores de perfumaria. 

Depois de andar às voltas, saíu pola porta principal e a praça apresentou-se, ante ela, deserta baixo umha cortina espesa e pesada de chuva. 

Foi só um flash, o tempo que demorou a dar umha olhadela à volta e abrir-se caminho entre as pessoas que se guardavam da treboada, mas ficou com aquela imagem nas retinas: a chuva a cair torrencial, como uma cortina nacarada; ninguém, para além dela, na praça; o céu cheio de luz pálida, opalescente. Sobretudo, essa luz.

Imaginou, depois, já no carro, como teria sido, para os outros, a imagem, com ela a atravessar, solitária, aquela esplanada, deixando-se calar pola chuva, que acariciava, morna,  os seus ombros e braços despidos, e afastando-se, enquanto apertava o passo de forma quase imperceptível para o olho humano, como umha mancha de seda vermelha que desapareceria para sempre  da sua vista nuns segundos.

E soube que a vida era isso.


Outono, sorrisos e esperança

E, ao final do segundo dia de Outono, choveu. 

A chuva surpreende-a ao sair à rua para deitar o lixo no contentor. Tinha estado tam entretida em dar um jeitinho à casa, que ainda nem se tinha apercebido de que tinha começado a chover. De aí que descesse de sapatilhas de casa. O homem que se refugia no portal enquanto fala ao telefone olha para ela, com ar estranhado. Ela sorri e atravessa a rua, sem apressar o passo, deixando-se molhar. Ela, que detesta a chuva e o clima húmido desta terra do Norte, sorri, porque está a chover mas nom está frio. Hoje nom é essa chuva peganhenta que entra nos óssos e já nom te deixa. Chove grosso e dá para intuir que daqui a pouco estará a chover tropicalmente. Lembra-se, de facto, de que tinha lido algo assim no jornal e também se lembra de que já tinha pensado que, no ano passado, o Outono abriu com umha ciclogénese. Lembra-se de estar a correr polo passeio fluvial a pensar no que havia de escrever sobre aquela ciclogénese ao chegar a casa. Lembra-se de estar a correr polo passeio fluvial a pensar que há um ano estava a pensar no que haveria de escrever sobre aquela ciclogénese e que este ano o Outono começou com um Sol morno, delicioso. Foi precisamente a surpresa desse Sol que a empurrou ontem a sair a correr depois do trabalho. Por isso sorri. E sente umha felicidade sossegada que lhe aquece o corpo e a alma e que faz com que consiga acreditar que manhá vai vir carregado de esperança para o futuro.

E vai pensando em tudo isto enquanto entra no elevador. E o espelho devolve-lhe o sorriso.

 


Carol (de novo)

Desde há dias sinto a presença de Carol. Ao começo foi só umha intuiçom, mas logo foi ficando mais nítida, mais perceptível. Agora tenho a certeza de que é ela a que me tem rondado nos últimos dias, a responsável por essa sensaçom de estranha tristeza que parece envolver cada um dos meus actos. Se sou sincero, só desejo que me deixe em paz, mas sei que isso é terrivelmente injusto para ela. Carol só continua a fazer o que sempre fixo, ainda que agora dê a impressom de estar a gozar connosco; percebe-se certa dose de maldade na sua voz quando entra nos nossos sonhos e nos sussurra as suas premoniçons ao ouvido, como uma Cassandra vingativa. 

Ou será que estou a julgá-la com dureza demais? 


A caçadora de pardais

Carol sempre quis ser caçadora de pardais.

Começara em criança e fora tecendo o seu sonho enquanto observava aqueles passarinhos aparentemente vulgares e insignificantes. Para ela, porém, representavam a única possibilidade de atingir o seu sonho: roubar o Sol. 

A ideia ocorrera-lhe ouvindo uma música de cantautor -dessas que não costumam ouvir as crianças: “Ataremos bandadas de pardais aos pulsos e fugiremos a outro planeta”. Ela fugiria até ao Sol. E rouba-lo-ia. E o Sol, a partir de então, seria só para ela.

O único que a atormentava era saber que nunca se atreveria a ter engaiolados os pardais enquanto juntava todos os que necessitava.


A senda das ovelhas

Confessa que gostas de tudo isto. De acordar no meio da noite com a sensaçom de ter dormido muito. De fazer tempo na escuridade enquanto ouves o ronronar da gata, que também acordou, ao teu lado. De sair da cama com umha mistura estranha de sentimentos que andam entre a resignaçom (por nom conseguir dormir) e a expectaçom (polo que poda dar de si a noite). Confessa que, quando acendes a luz da cozinha, envolta no lenço palestiniano, sem óculos, despenteada, estás a sorrir. Ao passares polo móvel de gavetas, imaginaste que pegavas no chapéu e que o punhas e que, com caneca de leite e computador, voltavas para a cama e começavas a escrever isso mesmo.

Enquanto o leite aquece, reparas nas osgas coloridas do tecto como se fosse a primeira vez (ou como se nom tivesses sido tu própria a da ideia de as colocardes aí) e aproximas-te à janela para observar as folhinhas novas da menta (que há semanas estava praticamente seca), as flores de hibisco escarchadas entre rodelas de ananás dentro do tarro de vidro, na estante, o caderno de receitas, os livros ligeiramente desalinhados; sobes ao banco para colocar o postal da sardinha, que estava caído sem que ninguém reparasse nele, ou sem que ninguém se desse ao trabalho de o colocar de novo até tu chegares.

A casa está cheia de vós, em cada canto. TU e ELE. Sente-se a vossa presença em cada cousa e adoras. Adoras esta casa, que sois vós. Sorris outra vez. Nom se pode dizer que esta situaçom de desvelo nocturno -passados os primeiros momentos, que sempre som de angústia-  te desagrade muito. Os pensamentos som lindos e correm, decorrem, transcorrem na vertical atlántica. Tudo te leva ali. 

O leite ainda nom chegou à temperatura certa e nem pensas no absurdo que pode parecer (para quem observar a escena de fora) abrir a sala de jantar só polo prazer de a ver e sabes que nom se trata do tempo que levavas fora, mas da tranquilidade que a casa toda te transmite. Sem perderes muito tempo, repetes os mesmos passos no escritório. É a necessidade, agora saciada, de te sentires parte dela,  como se nom entrar em cada quarto fosse umha afrenta imperdoável; para ela e para ti própria.

Regressas à cozinha no momento preciso para que o leite nom aquecesse de mais. Ao ver como conseguiste calcular a quantidade exacta a olho, compreendes o ritualizado que tens o processo. Sorris, com evidente satisfacçom, e vê-se bem como desfrutas do processo. Nota-se tanto!

Remexes o açúcar a caminho da cama, chamas por Aixa antes de apagar as luzes e olhas de novo o chapéu ao passar. 

O chapéu, a medusa, a boneca, os beijos de boa noite. 

Determinada a escrever algumha cousa enquanto transitas a senda das ovelhas, tam próxima a Murakami.