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A ciclogénese que roubou os últimos dias do verao

Queria entrar no outono nos bicos dos pés, silenciosa como umha bailarina e elegante como um ouriço. Queria entrar nele quase sem se aperceber e surpreender-se um dia ao ver as árvores sem folha. Queria desfrutar das últimas carícias do sol antes de se mergulhar no reino da chuva. Nom queria que a despedida fosse abrupta e inesperada. Mesmo que assim tivesse direito a ver o arco-íris de manhá cedo quando saía a correr. Apesar do cheiro intenso da terra molhada, da luz mágica que precede a trovoada, da chuva a molhar a sua pele. Nada disso conseguiu compensar a sensaçom de perda e ficou com a pena imensa de quem vê a morte das borboletas. 


Poeta de meia-noite

Se pudesse, estaria o tempo todo a escrever versos para ti. Umhas vezes, para esconjurar tristezas, para velar os teus sonhos ou para chamar o sono nas noites de insónia. Outras vezes -confesso-, quando nom estás, para fazer que o tempo passe mais rápido; ou para matar saudades; ou para que te encontres com umha surpresa linda ao acordares do outro lado do mundo. Outras, quando, de repente, por qualquer situaçom quotidiana, me apercebo do quanto te amo e me arrepio toda, como se todo o amor que sinto nom me coubesse na alma. E outras, ainda, só pelo prazer de dizer-te que te amo. Como agora.


Chamava-se Penélope

Chamava-se Penélope e era um poema.

Aquela noite, ao entrar na cama vazia, 

sentiu-se como quem entra num lugar sagrado.

E assim era. 

A cama, aquela, era, de facto, o seu templo,

desde aqueles primeiros dias, carregados de sol e de esperança;

desde que o seu amor ainda estava só a germinar;

desde aquele pôr-do-sol em Fisterra. 

A cama, aquela, é, de facto, o seu templo, 

onde ELE é o único deus venerado

e ELA, a única deusa.

Entrar na cama

e doer a ausência,

como aquela noite de agosto desvelada,

e sentir na pele o peso todo desse amor ancestral.

Entrar na cama

e saber que Penélope, a deusa, sou EU

e que o seu deus és TU

e que isto sempre foi, e será, Ítaca.

Onde eu te espero.