Monthly Archives: Fevereiro 2016

Carol ou as coincidências da vida

Desde muito nova, Carol sempre acreditara em duas cousas. Umha era a sua extraordinária capacidade para intuir as situaçons que lhe arranhavam a alma -mesmo a partir de detalhes inverosimilmente subtis, o que acabara por criar certa suspicácia entre as pessoas que a conheciam. A outra, ela própria.

Repetiu isto várias vezes mentalmente, enquanto bebia aquele gintonic preparado com todo o esmero que podia conseguir dadas as circunstâncias. 

Ao acabar, calçou as sandálias de salto altíssimo que comprara polo seu aniversário.

Forçou um sorriso para o espelho e saiu à rua.

Sabia perfeitamente o que tinha de fazer.

 

(14/11/2015, fb)


CRÓNICA DE UMHA NOITE ANUNCIADA

Depois de um almoço de amigas -para repetir- e sobremesa prolongada em casa com ela, preparava-se noite de trabalho, aproveitando a boa disposiçom (que nem sempre se dá, claro). Cafeteira de mate preparada, como é habitual para estas sessons nocturnas, e boa música. Aixa a dormitar no divam (que, depois da arrumaçom ficou outra vez à vista). Jantar de pasta requente diante do computador perto da meia-noite. Trabalho intervalado. Cama por volta das 2:15, sem sono, e leitura para relaxar. Nem sei até que horas. Ao pouco, foto de fogueira no retiro de kung-fu, a 1000km de aqui. Nota-se a minha falta lá. Sorrio. É lindo sabê-lo e que, a essas horas, se lembrem de te recordar isso. Calor. Tiro a roupa e cerro os olhinhos outra vez. Troca de mensagens, breve, beijos, e a imagem repentina de umha caneca de leite quente. Acende-se a luz e vamos lá preparar isso. Visto-me outra vez. Nengum sono. Ainda me lembro de tirar a roupa lavada da máquina e mete-la no cesto da roupa para passar. Rio. E penso em escrever isto. A sensaçom da inevitabilidade do desvelo. Os sinais som claros. Quero ler. E leio, com Aixa peludinha entre as minhas pernas, molesta porque o leite que estou a tomar está quente demais para a sua língua áspera. 5:10. Última vez que miro as horas. Leio mais um pouco, até acabar o capítulo. Tiro a roupa. Apago a luz. Durmo. Acordo com a primeira luz do dia. Ainda é cedo. Continuo. O despertador soa à hora programada. Nom sinto sono, mas decido imediatamente que nom tenho ganas de sair a correr. Mando mensagem de bom dia a um iphone que só pode estar ainda sem bateria, mas mando na mesma. Cozinha. Recebe-me a louça sem lavar ainda do almoço de ontem -estrategicamente colocada para nom dar muita sensaçom de desorde. Nevoeiro. Ligo a rádio. Vou lavar tudo isso. Sinto vontade de fazê-lo agora. Música cubana em Rádio 3. Conforme o trabalho avança, a névoa começa a levantar e sai o sol. Regressam, também, as ganas de correr. Mas antes tenho de escrever. E escrevo isto e posto-o. E, agora, vou correr. (14/11/2015, fb)


Bicicleta

Confesso que me levantei com preguiça e com o calor da cama colado à pele, como umha carícia que queres que nom acabe nunca. Duche rápido e quentíssimo para nom deixar perder essa sensaçom. Café de pé, na janela da cozinha. O céu está límpido. Deve estar frio fora. Mais preguiça: só poderei manter este calor se vou de carro… mmm… Duvido: há outra voz a dizer-me que vou arrepender-me se deixo a bici em casa. Vai estar sol, sol de inverno, e sei, de repente, com umha certeza que quase dói, de forma absolutamente irracional, que quero sentir a sua luz única. Já está decidido: irei de bicicleta! Acabo de arranjar-me (maquilhagem incluída, apesar de que começa a ficar tarde), acabo o café (já frio) e nom me esqueço do Mac nem de todos os cabos e carregadores para depois…

Gosto da última imagem que vejo de mim no espelho, antes de fechar a porta.

De bicicleta na mao, saio à rua. O céu, agora, tem umha tonalidade incerta entre o azul e o lilás, como com umha pátina metalizada ou nacarada. Abro a boca, admirada, ao ver a lua entre dous edifícios: só umha fatia de nácar brilhantíssimo em fase minguante. Ainda tento fazer umha foto, mas nom fica bem e desisto. Aliás, tenho de ir andando!

O ar é mesmo gélido, mas, surpreendentemente, senta bem na cara e nos pulmons. A geada, que, com os incipientes raios de sol, desprende faíscas cristalinas, cobre a relva do parque e os vidros dos carros que passaram a noite à intempérie. Só dá vontade de sorrir e pedalar… E faço-o! 

Menos mal que decidi vir de bici!

Pedalada a pedalada, penso em como vou escrever tudo isto ao chegar à escola, imagino as frases e as palavras que escolherei e desejo ser capaz de vos transmitir tanta beleza.