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O que me faz feliz

Pergunta o Facebook, curioso, as minhas comidas preferidas, o meu lema de vida, o que é que me faz feliz. E coloca umha carinha com sorriso. É o seu lado riquinho, como quando dá bom dia ou te oferece um vídeo de aniversário. O que é que me faz feliz. É lindo perguntar isso. Pode até ser absurdo (dado o contexto), mas nom deixa de ser lindo. O que é que me faz feliz. E penso: Ítaca. Ítaca, em sentido pleno. Ítaca-Homem, porque Ulises (ELE, que viajava tanto), no fundo, era Ítaca. E Ítaca-Casa, porque era ali que ELE sempre queria regressar; porque era em Ítaca que estava o seu lar, a Mulher tecedora de sonhos, ELA, Penélope linda. A sua Casa.

É essa sensaçom de me saber permanentemente em casa -CASA, esse estado sublime, incomparável, da Alma- o que me faz feliz, mesmo quando tu nom estás e nom podo abraçar-te, porque sei que, na realidade, Ítaca, sempre estás. 

Quando tu nom estás e podo ouvir, entre sonhos, o vento a susurrar-me no ouvido que me amas.

Isso é o que me faz feliz.

E, no entanto, nom é só isso.

Nom.

Definitivamente.

O que me faz mais feliz é a Vida. 

A Vida.

A Vida daquela música maravilhosa, daquele Agosto de Sol e gaivotas. A Vida que vou sempre agradecer e celebrar por me ter mostrado o caminho a Ítaca e todas as cousas lindas que, afinal, eram verdade, existiam, existem, e fazem parte de NÓS.


Chuva na pele

Entrou no centro-comercial, sorridente, com o sol, preguiçoso, a brincar entre as nuvens. Ía entretida e, se calhar, foi por isso que nem sequer reparou. Nem sequer sabia, de facto, se haveria, no momento em que ela entrou, algum sinal que pudesse tê-la feito perceber algo do que estava por vir.

Entrou, tratou do que tinha a tratar, foi rapidamente ao quarto de banho e ainda se perdeu no labirinto dos corredores de perfumaria. 

Depois de andar às voltas, saíu pola porta principal e a praça apresentou-se, ante ela, deserta baixo umha cortina espesa e pesada de chuva. 

Foi só um flash, o tempo que demorou a dar umha olhadela à volta e abrir-se caminho entre as pessoas que se guardavam da treboada, mas ficou com aquela imagem nas retinas: a chuva a cair torrencial, como uma cortina nacarada; ninguém, para além dela, na praça; o céu cheio de luz pálida, opalescente. Sobretudo, essa luz.

Imaginou, depois, já no carro, como teria sido, para os outros, a imagem, com ela a atravessar, solitária, aquela esplanada, deixando-se calar pola chuva, que acariciava, morna,  os seus ombros e braços despidos, e afastando-se, enquanto apertava o passo de forma quase imperceptível para o olho humano, como umha mancha de seda vermelha que desapareceria para sempre  da sua vista nuns segundos.

E soube que a vida era isso.