Chuva na pele

Entrou no centro-comercial, sorridente, com o sol, preguiçoso, a brincar entre as nuvens. Ía entretida e, se calhar, foi por isso que nem sequer reparou. Nem sequer sabia, de facto, se haveria, no momento em que ela entrou, algum sinal que pudesse tê-la feito perceber algo do que estava por vir.

Entrou, tratou do que tinha a tratar, foi rapidamente ao quarto de banho e ainda se perdeu no labirinto dos corredores de perfumaria. 

Depois de andar às voltas, saíu pola porta principal e a praça apresentou-se, ante ela, deserta baixo umha cortina espesa e pesada de chuva. 

Foi só um flash, o tempo que demorou a dar umha olhadela à volta e abrir-se caminho entre as pessoas que se guardavam da treboada, mas ficou com aquela imagem nas retinas: a chuva a cair torrencial, como uma cortina nacarada; ninguém, para além dela, na praça; o céu cheio de luz pálida, opalescente. Sobretudo, essa luz.

Imaginou, depois, já no carro, como teria sido, para os outros, a imagem, com ela a atravessar, solitária, aquela esplanada, deixando-se calar pola chuva, que acariciava, morna,  os seus ombros e braços despidos, e afastando-se, enquanto apertava o passo de forma quase imperceptível para o olho humano, como umha mancha de seda vermelha que desapareceria para sempre  da sua vista nuns segundos.

E soube que a vida era isso.


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