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Chuva na pele

Entrou no centro-comercial, sorridente, com o sol, preguiçoso, a brincar entre as nuvens. Ía entretida e, se calhar, foi por isso que nem sequer reparou. Nem sequer sabia, de facto, se haveria, no momento em que ela entrou, algum sinal que pudesse tê-la feito perceber algo do que estava por vir.

Entrou, tratou do que tinha a tratar, foi rapidamente ao quarto de banho e ainda se perdeu no labirinto dos corredores de perfumaria. 

Depois de andar às voltas, saíu pola porta principal e a praça apresentou-se, ante ela, deserta baixo umha cortina espesa e pesada de chuva. 

Foi só um flash, o tempo que demorou a dar umha olhadela à volta e abrir-se caminho entre as pessoas que se guardavam da treboada, mas ficou com aquela imagem nas retinas: a chuva a cair torrencial, como uma cortina nacarada; ninguém, para além dela, na praça; o céu cheio de luz pálida, opalescente. Sobretudo, essa luz.

Imaginou, depois, já no carro, como teria sido, para os outros, a imagem, com ela a atravessar, solitária, aquela esplanada, deixando-se calar pola chuva, que acariciava, morna,  os seus ombros e braços despidos, e afastando-se, enquanto apertava o passo de forma quase imperceptível para o olho humano, como umha mancha de seda vermelha que desapareceria para sempre  da sua vista nuns segundos.

E soube que a vida era isso.


A senda das ovelhas

Confessa que gostas de tudo isto. De acordar no meio da noite com a sensaçom de ter dormido muito. De fazer tempo na escuridade enquanto ouves o ronronar da gata, que também acordou, ao teu lado. De sair da cama com umha mistura estranha de sentimentos que andam entre a resignaçom (por nom conseguir dormir) e a expectaçom (polo que poda dar de si a noite). Confessa que, quando acendes a luz da cozinha, envolta no lenço palestiniano, sem óculos, despenteada, estás a sorrir. Ao passares polo móvel de gavetas, imaginaste que pegavas no chapéu e que o punhas e que, com caneca de leite e computador, voltavas para a cama e começavas a escrever isso mesmo.

Enquanto o leite aquece, reparas nas osgas coloridas do tecto como se fosse a primeira vez (ou como se nom tivesses sido tu própria a da ideia de as colocardes aí) e aproximas-te à janela para observar as folhinhas novas da menta (que há semanas estava praticamente seca), as flores de hibisco escarchadas entre rodelas de ananás dentro do tarro de vidro, na estante, o caderno de receitas, os livros ligeiramente desalinhados; sobes ao banco para colocar o postal da sardinha, que estava caído sem que ninguém reparasse nele, ou sem que ninguém se desse ao trabalho de o colocar de novo até tu chegares.

A casa está cheia de vós, em cada canto. TU e ELE. Sente-se a vossa presença em cada cousa e adoras. Adoras esta casa, que sois vós. Sorris outra vez. Nom se pode dizer que esta situaçom de desvelo nocturno -passados os primeiros momentos, que sempre som de angústia-  te desagrade muito. Os pensamentos som lindos e correm, decorrem, transcorrem na vertical atlántica. Tudo te leva ali. 

O leite ainda nom chegou à temperatura certa e nem pensas no absurdo que pode parecer (para quem observar a escena de fora) abrir a sala de jantar só polo prazer de a ver e sabes que nom se trata do tempo que levavas fora, mas da tranquilidade que a casa toda te transmite. Sem perderes muito tempo, repetes os mesmos passos no escritório. É a necessidade, agora saciada, de te sentires parte dela,  como se nom entrar em cada quarto fosse umha afrenta imperdoável; para ela e para ti própria.

Regressas à cozinha no momento preciso para que o leite nom aquecesse de mais. Ao ver como conseguiste calcular a quantidade exacta a olho, compreendes o ritualizado que tens o processo. Sorris, com evidente satisfacçom, e vê-se bem como desfrutas do processo. Nota-se tanto!

Remexes o açúcar a caminho da cama, chamas por Aixa antes de apagar as luzes e olhas de novo o chapéu ao passar. 

O chapéu, a medusa, a boneca, os beijos de boa noite. 

Determinada a escrever algumha cousa enquanto transitas a senda das ovelhas, tam próxima a Murakami.

 

 

 

 


Rituais

Nom te preocupes. No fundo, tudo faz parte de um ritual, diz Princess Serenity, telepaticamente. De vez em quando, surpreende-me com estes pensamentos clarividentes e sossegados. Tudo é paz e silêncio, nesta hora de ovelhas e leite bem quente; nesta hora de gatas desveladas e rituais que levam, inequivocamente, a esta cara oculta da lua. 


CRÓNICA DE UMHA NOITE ANUNCIADA

Depois de um almoço de amigas -para repetir- e sobremesa prolongada em casa com ela, preparava-se noite de trabalho, aproveitando a boa disposiçom (que nem sempre se dá, claro). Cafeteira de mate preparada, como é habitual para estas sessons nocturnas, e boa música. Aixa a dormitar no divam (que, depois da arrumaçom ficou outra vez à vista). Jantar de pasta requente diante do computador perto da meia-noite. Trabalho intervalado. Cama por volta das 2:15, sem sono, e leitura para relaxar. Nem sei até que horas. Ao pouco, foto de fogueira no retiro de kung-fu, a 1000km de aqui. Nota-se a minha falta lá. Sorrio. É lindo sabê-lo e que, a essas horas, se lembrem de te recordar isso. Calor. Tiro a roupa e cerro os olhinhos outra vez. Troca de mensagens, breve, beijos, e a imagem repentina de umha caneca de leite quente. Acende-se a luz e vamos lá preparar isso. Visto-me outra vez. Nengum sono. Ainda me lembro de tirar a roupa lavada da máquina e mete-la no cesto da roupa para passar. Rio. E penso em escrever isto. A sensaçom da inevitabilidade do desvelo. Os sinais som claros. Quero ler. E leio, com Aixa peludinha entre as minhas pernas, molesta porque o leite que estou a tomar está quente demais para a sua língua áspera. 5:10. Última vez que miro as horas. Leio mais um pouco, até acabar o capítulo. Tiro a roupa. Apago a luz. Durmo. Acordo com a primeira luz do dia. Ainda é cedo. Continuo. O despertador soa à hora programada. Nom sinto sono, mas decido imediatamente que nom tenho ganas de sair a correr. Mando mensagem de bom dia a um iphone que só pode estar ainda sem bateria, mas mando na mesma. Cozinha. Recebe-me a louça sem lavar ainda do almoço de ontem -estrategicamente colocada para nom dar muita sensaçom de desorde. Nevoeiro. Ligo a rádio. Vou lavar tudo isso. Sinto vontade de fazê-lo agora. Música cubana em Rádio 3. Conforme o trabalho avança, a névoa começa a levantar e sai o sol. Regressam, também, as ganas de correr. Mas antes tenho de escrever. E escrevo isto e posto-o. E, agora, vou correr. (14/11/2015, fb)


Bicicleta

Confesso que me levantei com preguiça e com o calor da cama colado à pele, como umha carícia que queres que nom acabe nunca. Duche rápido e quentíssimo para nom deixar perder essa sensaçom. Café de pé, na janela da cozinha. O céu está límpido. Deve estar frio fora. Mais preguiça: só poderei manter este calor se vou de carro… mmm… Duvido: há outra voz a dizer-me que vou arrepender-me se deixo a bici em casa. Vai estar sol, sol de inverno, e sei, de repente, com umha certeza que quase dói, de forma absolutamente irracional, que quero sentir a sua luz única. Já está decidido: irei de bicicleta! Acabo de arranjar-me (maquilhagem incluída, apesar de que começa a ficar tarde), acabo o café (já frio) e nom me esqueço do Mac nem de todos os cabos e carregadores para depois…

Gosto da última imagem que vejo de mim no espelho, antes de fechar a porta.

De bicicleta na mao, saio à rua. O céu, agora, tem umha tonalidade incerta entre o azul e o lilás, como com umha pátina metalizada ou nacarada. Abro a boca, admirada, ao ver a lua entre dous edifícios: só umha fatia de nácar brilhantíssimo em fase minguante. Ainda tento fazer umha foto, mas nom fica bem e desisto. Aliás, tenho de ir andando!

O ar é mesmo gélido, mas, surpreendentemente, senta bem na cara e nos pulmons. A geada, que, com os incipientes raios de sol, desprende faíscas cristalinas, cobre a relva do parque e os vidros dos carros que passaram a noite à intempérie. Só dá vontade de sorrir e pedalar… E faço-o! 

Menos mal que decidi vir de bici!

Pedalada a pedalada, penso em como vou escrever tudo isto ao chegar à escola, imagino as frases e as palavras que escolherei e desejo ser capaz de vos transmitir tanta beleza.