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A caçadora de pardais

Carol sempre quis ser caçadora de pardais.

Começara em criança e fora tecendo o seu sonho enquanto observava aqueles passarinhos aparentemente vulgares e insignificantes. Para ela, porém, representavam a única possibilidade de atingir o seu sonho: roubar o Sol. 

A ideia ocorrera-lhe ouvindo uma música de cantautor -dessas que não costumam ouvir as crianças: “Ataremos bandadas de pardais aos pulsos e fugiremos a outro planeta”. Ela fugiria até ao Sol. E rouba-lo-ia. E o Sol, a partir de então, seria só para ela.

O único que a atormentava era saber que nunca se atreveria a ter engaiolados os pardais enquanto juntava todos os que necessitava.


Carol ou as coincidências da vida

Desde muito nova, Carol sempre acreditara em duas cousas. Umha era a sua extraordinária capacidade para intuir as situaçons que lhe arranhavam a alma -mesmo a partir de detalhes inverosimilmente subtis, o que acabara por criar certa suspicácia entre as pessoas que a conheciam. A outra, ela própria.

Repetiu isto várias vezes mentalmente, enquanto bebia aquele gintonic preparado com todo o esmero que podia conseguir dadas as circunstâncias. 

Ao acabar, calçou as sandálias de salto altíssimo que comprara polo seu aniversário.

Forçou um sorriso para o espelho e saiu à rua.

Sabia perfeitamente o que tinha de fazer.

 

(14/11/2015, fb)


De Emma a Hermelinda

Nom sei se algumha vez desejei realmente ser Emma. Eu, que sempre fui qualquer cousa, excepto eu própria. Ou que sempre fui cousas demais para sentir-me só umha concreta. Identidades demais. Mulher habitada. Poli-pétala. Como umha metáfora vanguardista.

Dalgumha forma -nem sempre consciente- sempre me soube filha e herdeira de muitas outras. No começo, eram mulheres irreais, com os seus nomes e as suas personalidades diferenciadas. Depois, conheci outras mulheres que, por sua vez, também eram herdeiras doutras, às vezes verdadeiros mitos, outras vezes, deusas, outras, só personagens fictícias. Depois, eu própria fui isso tudo.

Nesse percurso, de muitos anos, conheci Emma sonhadora e conheci, também, Hermelinda. E li as páginas da novela que ela transitava com admiraçom e devoçom, sem saber nada. E Hermelinda passou, como passa a primavera. E esqueci-me dela.

Até que um dia nom pude continuar a fugir.

Voltou, de improviso, sem avisar, como a brisa suave que traz o cheiro ácido da maçá verde. Deliciosa.

Voltou, para fazer-me lembrar -e procurar de novo- aquelas palavras:

Aquela mañá faltoulle o amor. Afogaba. Deliraba, tamén. Sobre a súa cabeza voaban píntegas, lagartos, cabalos que eran lagartos. Lagartos como paxaros que piaban entre as árbores do río, lagartos. En primavera de petunias. Con flores que ela queria imaxinar tras a opaca negrura do presente, canalla. Faltoulle o amor. E faltáballe abril. Un abril entre os dedos de uñas sen pintar. Abril para os soños que soñaba: quería ser profesora de literatura. E falar da arte, da pel da arte: a emoción da arte. Afogaba. Deliraba, tamén. Precisaba prender a súa alma na ilusión. Unha ilusión. Escapar. Escapou.

Queríamos, ambas, alguém que escrevesse para nós um poema de amor, ou uma cançom; alguém que nos acariciasse a alma; alguém que nos fixesse sonhar.

Sonhar…

Algo assim.

Como se, no fundo, fôssemos Emma.

E, como ela, revoltámo-nos contra o tédio e voltámos a acreditar nos sonhos.

E foi.

E é.


No arame

Angie 

-ela-

é como um anjo: delicada e belíssima;

mas um anjo maldito,

sem rumo,

com um passado túrbido, que gostaria de esquecer

e, porém,

incapaz

de deixar

de

dar

voltas

ao redor

desse nada

que

a

atormenta,

empenhada em viver e reviver isso

cada dia,

cada noite.

Foi trapezista.

Tem marcas de golpes antigos nas costas de seda.

E penas brancas.

(Algum dia serám asas).