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A senda das ovelhas

Confessa que gostas de tudo isto. De acordar no meio da noite com a sensaçom de ter dormido muito. De fazer tempo na escuridade enquanto ouves o ronronar da gata, que também acordou, ao teu lado. De sair da cama com umha mistura estranha de sentimentos que andam entre a resignaçom (por nom conseguir dormir) e a expectaçom (polo que poda dar de si a noite). Confessa que, quando acendes a luz da cozinha, envolta no lenço palestiniano, sem óculos, despenteada, estás a sorrir. Ao passares polo móvel de gavetas, imaginaste que pegavas no chapéu e que o punhas e que, com caneca de leite e computador, voltavas para a cama e começavas a escrever isso mesmo.

Enquanto o leite aquece, reparas nas osgas coloridas do tecto como se fosse a primeira vez (ou como se nom tivesses sido tu própria a da ideia de as colocardes aí) e aproximas-te à janela para observar as folhinhas novas da menta (que há semanas estava praticamente seca), as flores de hibisco escarchadas entre rodelas de ananás dentro do tarro de vidro, na estante, o caderno de receitas, os livros ligeiramente desalinhados; sobes ao banco para colocar o postal da sardinha, que estava caído sem que ninguém reparasse nele, ou sem que ninguém se desse ao trabalho de o colocar de novo até tu chegares.

A casa está cheia de vós, em cada canto. TU e ELE. Sente-se a vossa presença em cada cousa e adoras. Adoras esta casa, que sois vós. Sorris outra vez. Nom se pode dizer que esta situaçom de desvelo nocturno -passados os primeiros momentos, que sempre som de angústia-  te desagrade muito. Os pensamentos som lindos e correm, decorrem, transcorrem na vertical atlántica. Tudo te leva ali. 

O leite ainda nom chegou à temperatura certa e nem pensas no absurdo que pode parecer (para quem observar a escena de fora) abrir a sala de jantar só polo prazer de a ver e sabes que nom se trata do tempo que levavas fora, mas da tranquilidade que a casa toda te transmite. Sem perderes muito tempo, repetes os mesmos passos no escritório. É a necessidade, agora saciada, de te sentires parte dela,  como se nom entrar em cada quarto fosse umha afrenta imperdoável; para ela e para ti própria.

Regressas à cozinha no momento preciso para que o leite nom aquecesse de mais. Ao ver como conseguiste calcular a quantidade exacta a olho, compreendes o ritualizado que tens o processo. Sorris, com evidente satisfacçom, e vê-se bem como desfrutas do processo. Nota-se tanto!

Remexes o açúcar a caminho da cama, chamas por Aixa antes de apagar as luzes e olhas de novo o chapéu ao passar. 

O chapéu, a medusa, a boneca, os beijos de boa noite. 

Determinada a escrever algumha cousa enquanto transitas a senda das ovelhas, tam próxima a Murakami.

 

 

 

 


Poeta de meia-noite

Se pudesse, estaria o tempo todo a escrever versos para ti. Umhas vezes, para esconjurar tristezas, para velar os teus sonhos ou para chamar o sono nas noites de insónia. Outras vezes -confesso-, quando nom estás, para fazer que o tempo passe mais rápido; ou para matar saudades; ou para que te encontres com umha surpresa linda ao acordares do outro lado do mundo. Outras, quando, de repente, por qualquer situaçom quotidiana, me apercebo do quanto te amo e me arrepio toda, como se todo o amor que sinto nom me coubesse na alma. E outras, ainda, só pelo prazer de dizer-te que te amo. Como agora.


Chamava-se Penélope

Chamava-se Penélope e era um poema.

Aquela noite, ao entrar na cama vazia, 

sentiu-se como quem entra num lugar sagrado.

E assim era. 

A cama, aquela, era, de facto, o seu templo,

desde aqueles primeiros dias, carregados de sol e de esperança;

desde que o seu amor ainda estava só a germinar;

desde aquele pôr-do-sol em Fisterra. 

A cama, aquela, é, de facto, o seu templo, 

onde ELE é o único deus venerado

e ELA, a única deusa.

Entrar na cama

e doer a ausência,

como aquela noite de agosto desvelada,

e sentir na pele o peso todo desse amor ancestral.

Entrar na cama

e saber que Penélope, a deusa, sou EU

e que o seu deus és TU

e que isto sempre foi, e será, Ítaca.

Onde eu te espero.


Escrever com um sorriso (ou como tecer a felicidade com os fios lindos das pequenas cousas)

O céu parece, hoje, um mar de nuvens. Cinzento clarinho. Tam clarinho que é possível adivinhar onde está o sol.

O cinzento, hoje, nom vem carregado dessa cousa peganhenta doutras vezes.

O cinzento, hoje, está cheio de luz.

Sinto a alma quentinha e sorrio. A soidade nom está insuportável. As ausências, no fundo, nom som ausências. Princess Serenity continua no seu retiro, a desfrutar dos últimos dias de maternidade, com essa outra criaturinha idêntica a ela, e TU estás sempre, mesmo quando nom estás. A tua presença nota-se em cada canto da casa. E adoro. Por isso nem me molesto em arrumar a tua roupa -leva nem sei que tempo em cima da cama-, porque prefiro vê-la ali cada vez que entro no quarto. É como se ainda estivesses. Ou como se fosses chegar a qualquer momento. E eu sei que é verdade, que sempre estás. Mas gosto, na mesma, de marcar a tua presença com as tuas cousas. Gosto de encontrar-te.

Por isso gosto de vestir a tua roupa, ou dormir abraçada à tua camisola vermelha.

Por isso uso o teu perfume todos os dias.

E leio os teus livros de banda desenhada.

Os beijos de bom dia, cheios de sóis e rosas vermelhas e sorrisos, fazem encarar o fim-de-semana como um trâmite necessário que passa logo. 

Acordei com ganas de trabalhar. De dedicar-me a esse projecto lindo que está começando a ter forma. Há outras cousas mais urgentes agora mesmo; nem sei se, também, mais importantes -importância e urgência nem sempre caminham juntas-, mas a importância também é umha questom de prioridades. Por isso, quero fazer primeiro as cousinhas que mais me aquecem a alma. E hoje há algo que me pede escrever, escrever para ti, enquanto tomo o café, com a luz toda do cinzento a entrar pola janela da cozinha, a ouvir fados de gaivotas que transmitem força e ganas de sorrir em lugar de tristeza. Por isso quero prolongar mais um pouquinho este momento, enquanto ainda permanece nos meus ouvidos a tua voz a dar bom dia, a desejar bom trabalho, a dizer que me amas, a mandar beijos.

Depois, o projecto. E, só no fim, as outras cousas.

E sei que vou desfrutar de todas elas, porque, apesar das prioridades, som cousas que adoro fazer. Quero desfrutar de cada umha, hoje que nom tenho de ir trabalhar, que nom há pressa nem stress nem despertadores nem timbres, hoje que tenho à frente todo o tempo para mim. E tanta paz.

Apesar da vossa ausência que nom é ausência.

Hoje acordei com ganas de sorrir.

E vai sair o sol.

.


Vailima, por exemplo

Hoje acordo com ganas de sol. E de TI. De estar contigo ao sol, em qualquer praia de areia branquinha e águas turquesas e quentes… Ganas de raios de sol a acariciar a minha cara para despertar-me e nom esta chúvia absurda e estúpida que enche todo desse gris peganhento, difícil de tirar da alma. Ganas dos teus braços a rodear-me forte enquanto nom acordamos totalmente.

Quero acordar e sorrir e ver, também, o teu sorriso.

Leva-me a umha ilha qualquer dos mares do Sul…


Lady Midnight

Quero dançar contigo esta noite, ainda que nem sequer tenha muito claro a que horas é isso. Poderia ser agora ou manhá cedo, nesse momento incerto e mágico antes do amanhecer. Noite, agora mesmo, é um conceito relativo, quase deíctico. Noite significa aqui. Dia significa ali (longe). E exclusivamente do ponto de vista de quem fala, ou seja, EU (porque, entretanto, alá, em Nevada, TU interpretas a realidade em sentido inverso). Poderia deslizar-me à velocidade da luz através dos fusos horários e chegar a tempo para tirar-me nos teus braços e dançar contigo, enquanto soa qualquer música de Leonard Cohen, justo antes de a magia finalizar e ter de regressar, à mesma velocidade impossível, à cama. Já sei que só poderia ser um instante brevíssimo. Só para ver de perto o brilho dos teus olhos e o teu sorriso. Só para ficar com a sensação das tuas mãos na minha pele. Só para te sussurrar no ouvido o quanto te amo.

Quero dançar contigo. 

Dançar.

Contigo, amor.


8.495,64 (aproximadamente)

Quero que encontres isto ao acordares.

Quero que saibas que, apesar da distância (esses números que quase provocam vertigem ao tentar imaginar), nom deixas de estar connosco, em casa. Que ELA vai ganhando alma, cada vez mais impregnada de ti e de mim, cada vez -também- mais zen de novo (como sempre foi). Que coloquei os tapetes marroquinos no escritório. Que nom me canso de mirar os teus livros nas prateleiras. Que continuo a fazer espaço nas gavetas. Que te encontro, que te sinto, em cada recanto. E que adoro. 

Quero que saibas que recomecei a ler O país das neves de Kawabata, que compraste para mim em São Paulo o 23 de abril; que é de umha delicadeza tal que quase podo sentir a suavidade gélida e sedosa dos copos de neve ao cair sobre a minha cara; que me faz ter a impressom de boiar no ar, como faria se fosse fada.

Quero que saibas que falar dos copos de neve me fixo lembrar Paris e o algodom de açúcar cor-de-rosa. E as ganas que tenho de viajar outra vez contigo.

Quero que saibas que estes dias uso os teus lenços e o teu perfume, para ter-te mais perto, para nom sentir tanto a vertigem da distância, que sobe desde o estômago como umha égua desbocada e logo desce brutalmente, como numha montanha russa que se desliza através dos fusos horários. 

Quero que saibas que me sinto forte e maravilhosa e feliz ao pensar em ti; que tenho a força de todas as gatas que existiram antes de mim; que hoje, sei, com certeza absoluta, que poderia ser a mesmíssima Bastet, a deusa-gata, reencarnada.

Quero que saibas que, agora, justo antes de sair, vou tele-transportar-me milhares de quilómetros, até esse pontinho de luzes e neons no sul de Nevada (tam perto de Paradise), para deixar sobre a tua pele os beijos mais doces e deliciosos, quentinhos e húmidos. Sentiste-os, amor? Sentiste, por um momento, brevíssimo, como se tivesses as asas de uma bolboreta a fazer-te cóxegas ao pousar em ti? nos teus olhinhos? nos teus lábios? em todo o teu corpo? Sentiste-a, também, na tua alma?

Quero que saibas que te amo.

Muitíssimo.


Tempo

Fico, amor,

à espera dos teus beijos.

Limito-me,

nesse tempo,

a ver abrir o dia

a ouvir crescer a erva

a escrever versos rápidos e desenfadados

a contar bolboretas verdes -ou azuis-

a acariciar gatas com olhos de névoa

a sonhar com paraísos desertos

a repetir em silêncio

como um mantra infinito

poemas de amor desesperados

(já quase gastados, de tam repetidos)

a sorrir,

para ti.

Enquanto espero.


De deuses e princesas

És

-tu-

o único deus reconhecido e adorado

nesta casa,

onde Princess Serenity descansa

em elegante, impertérrita, atitude,

sobre a manta de tigre.

                   (Violeta, como os caramelos).