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Outono, sorrisos e esperança

E, ao final do segundo dia de Outono, choveu. 

A chuva surpreende-a ao sair à rua para deitar o lixo no contentor. Tinha estado tam entretida em dar um jeitinho à casa, que ainda nem se tinha apercebido de que tinha começado a chover. De aí que descesse de sapatilhas de casa. O homem que se refugia no portal enquanto fala ao telefone olha para ela, com ar estranhado. Ela sorri e atravessa a rua, sem apressar o passo, deixando-se molhar. Ela, que detesta a chuva e o clima húmido desta terra do Norte, sorri, porque está a chover mas nom está frio. Hoje nom é essa chuva peganhenta que entra nos óssos e já nom te deixa. Chove grosso e dá para intuir que daqui a pouco estará a chover tropicalmente. Lembra-se, de facto, de que tinha lido algo assim no jornal e também se lembra de que já tinha pensado que, no ano passado, o Outono abriu com umha ciclogénese. Lembra-se de estar a correr polo passeio fluvial a pensar no que havia de escrever sobre aquela ciclogénese ao chegar a casa. Lembra-se de estar a correr polo passeio fluvial a pensar que há um ano estava a pensar no que haveria de escrever sobre aquela ciclogénese e que este ano o Outono começou com um Sol morno, delicioso. Foi precisamente a surpresa desse Sol que a empurrou ontem a sair a correr depois do trabalho. Por isso sorri. E sente umha felicidade sossegada que lhe aquece o corpo e a alma e que faz com que consiga acreditar que manhá vai vir carregado de esperança para o futuro.

E vai pensando em tudo isto enquanto entra no elevador. E o espelho devolve-lhe o sorriso.

 


Carol ou as coincidências da vida

Desde muito nova, Carol sempre acreditara em duas cousas. Umha era a sua extraordinária capacidade para intuir as situaçons que lhe arranhavam a alma -mesmo a partir de detalhes inverosimilmente subtis, o que acabara por criar certa suspicácia entre as pessoas que a conheciam. A outra, ela própria.

Repetiu isto várias vezes mentalmente, enquanto bebia aquele gintonic preparado com todo o esmero que podia conseguir dadas as circunstâncias. 

Ao acabar, calçou as sandálias de salto altíssimo que comprara polo seu aniversário.

Forçou um sorriso para o espelho e saiu à rua.

Sabia perfeitamente o que tinha de fazer.

 

(14/11/2015, fb)


Poeta de meia-noite

Se pudesse, estaria o tempo todo a escrever versos para ti. Umhas vezes, para esconjurar tristezas, para velar os teus sonhos ou para chamar o sono nas noites de insónia. Outras vezes -confesso-, quando nom estás, para fazer que o tempo passe mais rápido; ou para matar saudades; ou para que te encontres com umha surpresa linda ao acordares do outro lado do mundo. Outras, quando, de repente, por qualquer situaçom quotidiana, me apercebo do quanto te amo e me arrepio toda, como se todo o amor que sinto nom me coubesse na alma. E outras, ainda, só pelo prazer de dizer-te que te amo. Como agora.


Escrever com um sorriso (ou como tecer a felicidade com os fios lindos das pequenas cousas)

O céu parece, hoje, um mar de nuvens. Cinzento clarinho. Tam clarinho que é possível adivinhar onde está o sol.

O cinzento, hoje, nom vem carregado dessa cousa peganhenta doutras vezes.

O cinzento, hoje, está cheio de luz.

Sinto a alma quentinha e sorrio. A soidade nom está insuportável. As ausências, no fundo, nom som ausências. Princess Serenity continua no seu retiro, a desfrutar dos últimos dias de maternidade, com essa outra criaturinha idêntica a ela, e TU estás sempre, mesmo quando nom estás. A tua presença nota-se em cada canto da casa. E adoro. Por isso nem me molesto em arrumar a tua roupa -leva nem sei que tempo em cima da cama-, porque prefiro vê-la ali cada vez que entro no quarto. É como se ainda estivesses. Ou como se fosses chegar a qualquer momento. E eu sei que é verdade, que sempre estás. Mas gosto, na mesma, de marcar a tua presença com as tuas cousas. Gosto de encontrar-te.

Por isso gosto de vestir a tua roupa, ou dormir abraçada à tua camisola vermelha.

Por isso uso o teu perfume todos os dias.

E leio os teus livros de banda desenhada.

Os beijos de bom dia, cheios de sóis e rosas vermelhas e sorrisos, fazem encarar o fim-de-semana como um trâmite necessário que passa logo. 

Acordei com ganas de trabalhar. De dedicar-me a esse projecto lindo que está começando a ter forma. Há outras cousas mais urgentes agora mesmo; nem sei se, também, mais importantes -importância e urgência nem sempre caminham juntas-, mas a importância também é umha questom de prioridades. Por isso, quero fazer primeiro as cousinhas que mais me aquecem a alma. E hoje há algo que me pede escrever, escrever para ti, enquanto tomo o café, com a luz toda do cinzento a entrar pola janela da cozinha, a ouvir fados de gaivotas que transmitem força e ganas de sorrir em lugar de tristeza. Por isso quero prolongar mais um pouquinho este momento, enquanto ainda permanece nos meus ouvidos a tua voz a dar bom dia, a desejar bom trabalho, a dizer que me amas, a mandar beijos.

Depois, o projecto. E, só no fim, as outras cousas.

E sei que vou desfrutar de todas elas, porque, apesar das prioridades, som cousas que adoro fazer. Quero desfrutar de cada umha, hoje que nom tenho de ir trabalhar, que nom há pressa nem stress nem despertadores nem timbres, hoje que tenho à frente todo o tempo para mim. E tanta paz.

Apesar da vossa ausência que nom é ausência.

Hoje acordei com ganas de sorrir.

E vai sair o sol.

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De Emma a Hermelinda

Nom sei se algumha vez desejei realmente ser Emma. Eu, que sempre fui qualquer cousa, excepto eu própria. Ou que sempre fui cousas demais para sentir-me só umha concreta. Identidades demais. Mulher habitada. Poli-pétala. Como umha metáfora vanguardista.

Dalgumha forma -nem sempre consciente- sempre me soube filha e herdeira de muitas outras. No começo, eram mulheres irreais, com os seus nomes e as suas personalidades diferenciadas. Depois, conheci outras mulheres que, por sua vez, também eram herdeiras doutras, às vezes verdadeiros mitos, outras vezes, deusas, outras, só personagens fictícias. Depois, eu própria fui isso tudo.

Nesse percurso, de muitos anos, conheci Emma sonhadora e conheci, também, Hermelinda. E li as páginas da novela que ela transitava com admiraçom e devoçom, sem saber nada. E Hermelinda passou, como passa a primavera. E esqueci-me dela.

Até que um dia nom pude continuar a fugir.

Voltou, de improviso, sem avisar, como a brisa suave que traz o cheiro ácido da maçá verde. Deliciosa.

Voltou, para fazer-me lembrar -e procurar de novo- aquelas palavras:

Aquela mañá faltoulle o amor. Afogaba. Deliraba, tamén. Sobre a súa cabeza voaban píntegas, lagartos, cabalos que eran lagartos. Lagartos como paxaros que piaban entre as árbores do río, lagartos. En primavera de petunias. Con flores que ela queria imaxinar tras a opaca negrura do presente, canalla. Faltoulle o amor. E faltáballe abril. Un abril entre os dedos de uñas sen pintar. Abril para os soños que soñaba: quería ser profesora de literatura. E falar da arte, da pel da arte: a emoción da arte. Afogaba. Deliraba, tamén. Precisaba prender a súa alma na ilusión. Unha ilusión. Escapar. Escapou.

Queríamos, ambas, alguém que escrevesse para nós um poema de amor, ou uma cançom; alguém que nos acariciasse a alma; alguém que nos fixesse sonhar.

Sonhar…

Algo assim.

Como se, no fundo, fôssemos Emma.

E, como ela, revoltámo-nos contra o tédio e voltámos a acreditar nos sonhos.

E foi.

E é.


Névoa

A cidade acorda envolta em organza,

cinzenta,

húmida e áspera na pele,

essa que, a estas horas (tam cedo!),

senta como umha carícia que arranha delicadamente na alma

e deixa nela reminiscências peganhentas,

como a marmelada das torradas que acompanham o café

nos dedos.

Saudade de dias passados em paraísos quentes,

em Ítaca sonhada,

quando a realidade parecia tam longe

e Paradise enchia todo de luz.

Deixo-me acariciar pola névoa nesta manhá

-típica de outono-

que intuo fresca desde o outro lado da janela,

e imagino-te a percorrer o meu corpo

com os teus dedos de sol

e fico aí, refugiada em ti, 

no calor morno do teu abraço

a ronronar baixinho

enquanto aguardo,

serena.

E feliz.