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Chamava-se Penélope

Chamava-se Penélope e era um poema.

Aquela noite, ao entrar na cama vazia, 

sentiu-se como quem entra num lugar sagrado.

E assim era. 

A cama, aquela, era, de facto, o seu templo,

desde aqueles primeiros dias, carregados de sol e de esperança;

desde que o seu amor ainda estava só a germinar;

desde aquele pôr-do-sol em Fisterra. 

A cama, aquela, é, de facto, o seu templo, 

onde ELE é o único deus venerado

e ELA, a única deusa.

Entrar na cama

e doer a ausência,

como aquela noite de agosto desvelada,

e sentir na pele o peso todo desse amor ancestral.

Entrar na cama

e saber que Penélope, a deusa, sou EU

e que o seu deus és TU

e que isto sempre foi, e será, Ítaca.

Onde eu te espero.


Escrever com um sorriso (ou como tecer a felicidade com os fios lindos das pequenas cousas)

O céu parece, hoje, um mar de nuvens. Cinzento clarinho. Tam clarinho que é possível adivinhar onde está o sol.

O cinzento, hoje, nom vem carregado dessa cousa peganhenta doutras vezes.

O cinzento, hoje, está cheio de luz.

Sinto a alma quentinha e sorrio. A soidade nom está insuportável. As ausências, no fundo, nom som ausências. Princess Serenity continua no seu retiro, a desfrutar dos últimos dias de maternidade, com essa outra criaturinha idêntica a ela, e TU estás sempre, mesmo quando nom estás. A tua presença nota-se em cada canto da casa. E adoro. Por isso nem me molesto em arrumar a tua roupa -leva nem sei que tempo em cima da cama-, porque prefiro vê-la ali cada vez que entro no quarto. É como se ainda estivesses. Ou como se fosses chegar a qualquer momento. E eu sei que é verdade, que sempre estás. Mas gosto, na mesma, de marcar a tua presença com as tuas cousas. Gosto de encontrar-te.

Por isso gosto de vestir a tua roupa, ou dormir abraçada à tua camisola vermelha.

Por isso uso o teu perfume todos os dias.

E leio os teus livros de banda desenhada.

Os beijos de bom dia, cheios de sóis e rosas vermelhas e sorrisos, fazem encarar o fim-de-semana como um trâmite necessário que passa logo. 

Acordei com ganas de trabalhar. De dedicar-me a esse projecto lindo que está começando a ter forma. Há outras cousas mais urgentes agora mesmo; nem sei se, também, mais importantes -importância e urgência nem sempre caminham juntas-, mas a importância também é umha questom de prioridades. Por isso, quero fazer primeiro as cousinhas que mais me aquecem a alma. E hoje há algo que me pede escrever, escrever para ti, enquanto tomo o café, com a luz toda do cinzento a entrar pola janela da cozinha, a ouvir fados de gaivotas que transmitem força e ganas de sorrir em lugar de tristeza. Por isso quero prolongar mais um pouquinho este momento, enquanto ainda permanece nos meus ouvidos a tua voz a dar bom dia, a desejar bom trabalho, a dizer que me amas, a mandar beijos.

Depois, o projecto. E, só no fim, as outras cousas.

E sei que vou desfrutar de todas elas, porque, apesar das prioridades, som cousas que adoro fazer. Quero desfrutar de cada umha, hoje que nom tenho de ir trabalhar, que nom há pressa nem stress nem despertadores nem timbres, hoje que tenho à frente todo o tempo para mim. E tanta paz.

Apesar da vossa ausência que nom é ausência.

Hoje acordei com ganas de sorrir.

E vai sair o sol.

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