Tag Archives: cama

CRÓNICA DE UMHA NOITE ANUNCIADA

Depois de um almoço de amigas -para repetir- e sobremesa prolongada em casa com ela, preparava-se noite de trabalho, aproveitando a boa disposiçom (que nem sempre se dá, claro). Cafeteira de mate preparada, como é habitual para estas sessons nocturnas, e boa música. Aixa a dormitar no divam (que, depois da arrumaçom ficou outra vez à vista). Jantar de pasta requente diante do computador perto da meia-noite. Trabalho intervalado. Cama por volta das 2:15, sem sono, e leitura para relaxar. Nem sei até que horas. Ao pouco, foto de fogueira no retiro de kung-fu, a 1000km de aqui. Nota-se a minha falta lá. Sorrio. É lindo sabê-lo e que, a essas horas, se lembrem de te recordar isso. Calor. Tiro a roupa e cerro os olhinhos outra vez. Troca de mensagens, breve, beijos, e a imagem repentina de umha caneca de leite quente. Acende-se a luz e vamos lá preparar isso. Visto-me outra vez. Nengum sono. Ainda me lembro de tirar a roupa lavada da máquina e mete-la no cesto da roupa para passar. Rio. E penso em escrever isto. A sensaçom da inevitabilidade do desvelo. Os sinais som claros. Quero ler. E leio, com Aixa peludinha entre as minhas pernas, molesta porque o leite que estou a tomar está quente demais para a sua língua áspera. 5:10. Última vez que miro as horas. Leio mais um pouco, até acabar o capítulo. Tiro a roupa. Apago a luz. Durmo. Acordo com a primeira luz do dia. Ainda é cedo. Continuo. O despertador soa à hora programada. Nom sinto sono, mas decido imediatamente que nom tenho ganas de sair a correr. Mando mensagem de bom dia a um iphone que só pode estar ainda sem bateria, mas mando na mesma. Cozinha. Recebe-me a louça sem lavar ainda do almoço de ontem -estrategicamente colocada para nom dar muita sensaçom de desorde. Nevoeiro. Ligo a rádio. Vou lavar tudo isso. Sinto vontade de fazê-lo agora. Música cubana em Rádio 3. Conforme o trabalho avança, a névoa começa a levantar e sai o sol. Regressam, também, as ganas de correr. Mas antes tenho de escrever. E escrevo isto e posto-o. E, agora, vou correr. (14/11/2015, fb)


Chamava-se Penélope

Chamava-se Penélope e era um poema.

Aquela noite, ao entrar na cama vazia, 

sentiu-se como quem entra num lugar sagrado.

E assim era. 

A cama, aquela, era, de facto, o seu templo,

desde aqueles primeiros dias, carregados de sol e de esperança;

desde que o seu amor ainda estava só a germinar;

desde aquele pôr-do-sol em Fisterra. 

A cama, aquela, é, de facto, o seu templo, 

onde ELE é o único deus venerado

e ELA, a única deusa.

Entrar na cama

e doer a ausência,

como aquela noite de agosto desvelada,

e sentir na pele o peso todo desse amor ancestral.

Entrar na cama

e saber que Penélope, a deusa, sou EU

e que o seu deus és TU

e que isto sempre foi, e será, Ítaca.

Onde eu te espero.