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Chuva na pele

Entrou no centro-comercial, sorridente, com o sol, preguiçoso, a brincar entre as nuvens. Ía entretida e, se calhar, foi por isso que nem sequer reparou. Nem sequer sabia, de facto, se haveria, no momento em que ela entrou, algum sinal que pudesse tê-la feito perceber algo do que estava por vir.

Entrou, tratou do que tinha a tratar, foi rapidamente ao quarto de banho e ainda se perdeu no labirinto dos corredores de perfumaria. 

Depois de andar às voltas, saíu pola porta principal e a praça apresentou-se, ante ela, deserta baixo umha cortina espesa e pesada de chuva. 

Foi só um flash, o tempo que demorou a dar umha olhadela à volta e abrir-se caminho entre as pessoas que se guardavam da treboada, mas ficou com aquela imagem nas retinas: a chuva a cair torrencial, como uma cortina nacarada; ninguém, para além dela, na praça; o céu cheio de luz pálida, opalescente. Sobretudo, essa luz.

Imaginou, depois, já no carro, como teria sido, para os outros, a imagem, com ela a atravessar, solitária, aquela esplanada, deixando-se calar pola chuva, que acariciava, morna,  os seus ombros e braços despidos, e afastando-se, enquanto apertava o passo de forma quase imperceptível para o olho humano, como umha mancha de seda vermelha que desapareceria para sempre  da sua vista nuns segundos.

E soube que a vida era isso.


Bicicleta

Confesso que me levantei com preguiça e com o calor da cama colado à pele, como umha carícia que queres que nom acabe nunca. Duche rápido e quentíssimo para nom deixar perder essa sensaçom. Café de pé, na janela da cozinha. O céu está límpido. Deve estar frio fora. Mais preguiça: só poderei manter este calor se vou de carro… mmm… Duvido: há outra voz a dizer-me que vou arrepender-me se deixo a bici em casa. Vai estar sol, sol de inverno, e sei, de repente, com umha certeza que quase dói, de forma absolutamente irracional, que quero sentir a sua luz única. Já está decidido: irei de bicicleta! Acabo de arranjar-me (maquilhagem incluída, apesar de que começa a ficar tarde), acabo o café (já frio) e nom me esqueço do Mac nem de todos os cabos e carregadores para depois…

Gosto da última imagem que vejo de mim no espelho, antes de fechar a porta.

De bicicleta na mao, saio à rua. O céu, agora, tem umha tonalidade incerta entre o azul e o lilás, como com umha pátina metalizada ou nacarada. Abro a boca, admirada, ao ver a lua entre dous edifícios: só umha fatia de nácar brilhantíssimo em fase minguante. Ainda tento fazer umha foto, mas nom fica bem e desisto. Aliás, tenho de ir andando!

O ar é mesmo gélido, mas, surpreendentemente, senta bem na cara e nos pulmons. A geada, que, com os incipientes raios de sol, desprende faíscas cristalinas, cobre a relva do parque e os vidros dos carros que passaram a noite à intempérie. Só dá vontade de sorrir e pedalar… E faço-o! 

Menos mal que decidi vir de bici!

Pedalada a pedalada, penso em como vou escrever tudo isto ao chegar à escola, imagino as frases e as palavras que escolherei e desejo ser capaz de vos transmitir tanta beleza.