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Chuva na pele

Entrou no centro-comercial, sorridente, com o sol, preguiçoso, a brincar entre as nuvens. Ía entretida e, se calhar, foi por isso que nem sequer reparou. Nem sequer sabia, de facto, se haveria, no momento em que ela entrou, algum sinal que pudesse tê-la feito perceber algo do que estava por vir.

Entrou, tratou do que tinha a tratar, foi rapidamente ao quarto de banho e ainda se perdeu no labirinto dos corredores de perfumaria. 

Depois de andar às voltas, saíu pola porta principal e a praça apresentou-se, ante ela, deserta baixo umha cortina espesa e pesada de chuva. 

Foi só um flash, o tempo que demorou a dar umha olhadela à volta e abrir-se caminho entre as pessoas que se guardavam da treboada, mas ficou com aquela imagem nas retinas: a chuva a cair torrencial, como uma cortina nacarada; ninguém, para além dela, na praça; o céu cheio de luz pálida, opalescente. Sobretudo, essa luz.

Imaginou, depois, já no carro, como teria sido, para os outros, a imagem, com ela a atravessar, solitária, aquela esplanada, deixando-se calar pola chuva, que acariciava, morna,  os seus ombros e braços despidos, e afastando-se, enquanto apertava o passo de forma quase imperceptível para o olho humano, como umha mancha de seda vermelha que desapareceria para sempre  da sua vista nuns segundos.

E soube que a vida era isso.


Outono, sorrisos e esperança

E, ao final do segundo dia de Outono, choveu. 

A chuva surpreende-a ao sair à rua para deitar o lixo no contentor. Tinha estado tam entretida em dar um jeitinho à casa, que ainda nem se tinha apercebido de que tinha começado a chover. De aí que descesse de sapatilhas de casa. O homem que se refugia no portal enquanto fala ao telefone olha para ela, com ar estranhado. Ela sorri e atravessa a rua, sem apressar o passo, deixando-se molhar. Ela, que detesta a chuva e o clima húmido desta terra do Norte, sorri, porque está a chover mas nom está frio. Hoje nom é essa chuva peganhenta que entra nos óssos e já nom te deixa. Chove grosso e dá para intuir que daqui a pouco estará a chover tropicalmente. Lembra-se, de facto, de que tinha lido algo assim no jornal e também se lembra de que já tinha pensado que, no ano passado, o Outono abriu com umha ciclogénese. Lembra-se de estar a correr polo passeio fluvial a pensar no que havia de escrever sobre aquela ciclogénese ao chegar a casa. Lembra-se de estar a correr polo passeio fluvial a pensar que há um ano estava a pensar no que haveria de escrever sobre aquela ciclogénese e que este ano o Outono começou com um Sol morno, delicioso. Foi precisamente a surpresa desse Sol que a empurrou ontem a sair a correr depois do trabalho. Por isso sorri. E sente umha felicidade sossegada que lhe aquece o corpo e a alma e que faz com que consiga acreditar que manhá vai vir carregado de esperança para o futuro.

E vai pensando em tudo isto enquanto entra no elevador. E o espelho devolve-lhe o sorriso.