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Outono, sorrisos e esperança

E, ao final do segundo dia de Outono, choveu. 

A chuva surpreende-a ao sair à rua para deitar o lixo no contentor. Tinha estado tam entretida em dar um jeitinho à casa, que ainda nem se tinha apercebido de que tinha começado a chover. De aí que descesse de sapatilhas de casa. O homem que se refugia no portal enquanto fala ao telefone olha para ela, com ar estranhado. Ela sorri e atravessa a rua, sem apressar o passo, deixando-se molhar. Ela, que detesta a chuva e o clima húmido desta terra do Norte, sorri, porque está a chover mas nom está frio. Hoje nom é essa chuva peganhenta que entra nos óssos e já nom te deixa. Chove grosso e dá para intuir que daqui a pouco estará a chover tropicalmente. Lembra-se, de facto, de que tinha lido algo assim no jornal e também se lembra de que já tinha pensado que, no ano passado, o Outono abriu com umha ciclogénese. Lembra-se de estar a correr polo passeio fluvial a pensar no que havia de escrever sobre aquela ciclogénese ao chegar a casa. Lembra-se de estar a correr polo passeio fluvial a pensar que há um ano estava a pensar no que haveria de escrever sobre aquela ciclogénese e que este ano o Outono começou com um Sol morno, delicioso. Foi precisamente a surpresa desse Sol que a empurrou ontem a sair a correr depois do trabalho. Por isso sorri. E sente umha felicidade sossegada que lhe aquece o corpo e a alma e que faz com que consiga acreditar que manhá vai vir carregado de esperança para o futuro.

E vai pensando em tudo isto enquanto entra no elevador. E o espelho devolve-lhe o sorriso.

 


Chamava-se Penélope

Chamava-se Penélope e era um poema.

Aquela noite, ao entrar na cama vazia, 

sentiu-se como quem entra num lugar sagrado.

E assim era. 

A cama, aquela, era, de facto, o seu templo,

desde aqueles primeiros dias, carregados de sol e de esperança;

desde que o seu amor ainda estava só a germinar;

desde aquele pôr-do-sol em Fisterra. 

A cama, aquela, é, de facto, o seu templo, 

onde ELE é o único deus venerado

e ELA, a única deusa.

Entrar na cama

e doer a ausência,

como aquela noite de agosto desvelada,

e sentir na pele o peso todo desse amor ancestral.

Entrar na cama

e saber que Penélope, a deusa, sou EU

e que o seu deus és TU

e que isto sempre foi, e será, Ítaca.

Onde eu te espero.