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Coraçom (solar) de purpurina

Desde aquela conversa, tinha imaginado muitas vezes como iria ser o reencontro, mas, como era costume quando estava excitada com algo, nom conseguia formar pensamentos ordenados nem desenvolvidos. Saltava de umha cousa para outra sem se concentrar em nada e sentia a ansiedade e a impaciência a crescerem dentro dela. Era inútil, por exemplo, tentar decidir agora a roupa que quereria levar. Tinha umha ideia feita, mas provavelmente viria ainda mudar várias vezes, polo que nom adiantava muito iludir-se. Só no último momento conseguiria tomar umha decisom sobre isso e já sabia que, mesmo que tivesse pensado, como tinha, acordar mais cedo, acabaria por chegar atrasada ao trabalho. A correr, no melhor dos casos. Mas ía acordar antes na mesma. Mesmo que só fosse para perder o tempo e passear a casa toda cheia de nervos impossíveis.

Nem sequer agora que já estava na cama conseguia ainda organizar-se e relaxar um pouco. Nem lhe passava pola cabeça pegar nalgum dos livros que andava a simultanear nos últimos dias, porque nom tinha concentraçom para isso. Olhava para o telefone, sem esperar -obviamente-, a aquelas horas, que ninguém ligasse ou escrevesse; via as horas e pensava que, aos poucos, começava a ficar tarde e que descansaria pouco -ela que, até havia umhas horas tinha todo o tempo do mundo pola frente; dava um passeio polo facebook; pelejava com a gata; levantava-se a mijar, a aquecer leite, outra vez a mijar, a comprovar que tinha fechado a porta à chave…; podia aproveitar para trabalhar mais um pouco, mas achava tarde demais para o trabalho; queria dormir, mas também nom queria; era como se ainda restasse algo por fazer, só que nom sabia o que era que restava. 

Pensava numhas meias de rede parisinas, numha saia preta, numha t-shirt amarela com coraçom de purpurina. Pensava em ser actriz de circo, levar um guarda-chuva vermelho, t-shirt amarela com coraçom de purpurina, saia preta, meias de rede mercadas em Paris. Pensava numha rede, mas ela nom era trapezista e tinha medo de cair. Pensava que nom sabia já se estava a sonhar ou ainda acordada.

Pensava que queria dormir e que nom podia, porque só queria pensar nele.


8.495,64 (aproximadamente)

Quero que encontres isto ao acordares.

Quero que saibas que, apesar da distância (esses números que quase provocam vertigem ao tentar imaginar), nom deixas de estar connosco, em casa. Que ELA vai ganhando alma, cada vez mais impregnada de ti e de mim, cada vez -também- mais zen de novo (como sempre foi). Que coloquei os tapetes marroquinos no escritório. Que nom me canso de mirar os teus livros nas prateleiras. Que continuo a fazer espaço nas gavetas. Que te encontro, que te sinto, em cada recanto. E que adoro. 

Quero que saibas que recomecei a ler O país das neves de Kawabata, que compraste para mim em São Paulo o 23 de abril; que é de umha delicadeza tal que quase podo sentir a suavidade gélida e sedosa dos copos de neve ao cair sobre a minha cara; que me faz ter a impressom de boiar no ar, como faria se fosse fada.

Quero que saibas que falar dos copos de neve me fixo lembrar Paris e o algodom de açúcar cor-de-rosa. E as ganas que tenho de viajar outra vez contigo.

Quero que saibas que estes dias uso os teus lenços e o teu perfume, para ter-te mais perto, para nom sentir tanto a vertigem da distância, que sobe desde o estômago como umha égua desbocada e logo desce brutalmente, como numha montanha russa que se desliza através dos fusos horários. 

Quero que saibas que me sinto forte e maravilhosa e feliz ao pensar em ti; que tenho a força de todas as gatas que existiram antes de mim; que hoje, sei, com certeza absoluta, que poderia ser a mesmíssima Bastet, a deusa-gata, reencarnada.

Quero que saibas que, agora, justo antes de sair, vou tele-transportar-me milhares de quilómetros, até esse pontinho de luzes e neons no sul de Nevada (tam perto de Paradise), para deixar sobre a tua pele os beijos mais doces e deliciosos, quentinhos e húmidos. Sentiste-os, amor? Sentiste, por um momento, brevíssimo, como se tivesses as asas de uma bolboreta a fazer-te cóxegas ao pousar em ti? nos teus olhinhos? nos teus lábios? em todo o teu corpo? Sentiste-a, também, na tua alma?

Quero que saibas que te amo.

Muitíssimo.